Táxi ainda sobrevive em Porto Alegre
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Deivid Jorge Benetti
5/27/20264 min read


Em uma cidade tomada pelo trânsito, aplicativos e pressa, taxistas tradicionais seguem lutando para não desaparecer
Durante anos, o táxi foi símbolo de mobilidade urbana, confiança e até status em Porto Alegre. Hoje, em meio ao domínio dos aplicativos, congestionamentos intermináveis e um trânsito cada vez mais agressivo, muitos acreditam que a profissão perdeu espaço. Mas algumas histórias mostram justamente o contrário.
A participação de Eliana Dávila, a conhecida “Lili”, no programa Fala Tchê, escancara uma realidade que pouca gente observa: ainda existe um grupo de profissionais que carrega décadas de experiência nas ruas da Capital e continua resistindo mesmo diante de um sistema que mudou completamente.
Com mais de 30 anos de profissão, Lili não fala apenas sobre dirigir um táxi. Ela fala sobre sobrevivência.
Porto Alegre mudou — e o trânsito virou um reflexo disso
O excesso de veículos transformou dirigir em uma guerra diária
Quem vive em Porto Alegre sabe que dirigir hoje é completamente diferente do que era há 20 anos. O crescimento desenfreado da frota transformou trajetos simples em longas horas de estresse.
Lili resume isso de forma direta ao afirmar que o trânsito ficou mais complicado não apenas pela quantidade de carros, mas principalmente pela falta de educação dos motoristas.
E ela está certa.
A cidade parece ter perdido a paciência. O trânsito virou um ambiente de disputa, buzina, imprudência e intolerância. Para quem trabalha atrás do volante o dia inteiro, isso não é detalhe. É desgaste físico e psicológico diário.
O problema é que muitas vezes a população olha para o trânsito apenas como um atraso no relógio. Para taxistas, motoristas de aplicativo, caminhoneiros e entregadores, o trânsito é o próprio ambiente de trabalho.
O impacto dos aplicativos mudou o jogo — mas não acabou com os táxis
A concorrência desigual criou um sistema onde poucos seguem valorizados
Quando Uber e 99 chegaram ao mercado, venderam a ideia de modernidade, praticidade e preços baixos. E funcionou.
Mas existe um ponto que pouca gente gosta de discutir: as regras nunca foram iguais.
Enquanto taxistas enfrentam fiscalização rígida, exames toxicológicos, licenças, vistorias e certidões negativas, muitos motoristas de aplicativo operam com exigências muito menores.
A fala de Lili expõe exatamente isso.
Não é apenas uma questão de concorrência. É uma diferença estrutural.
O taxista investe alto para trabalhar legalmente. O motorista de aplicativo entra no sistema com muito menos barreiras. O resultado é uma competição onde o preço acaba esmagando o profissional tradicional.
Mesmo assim, os táxis não desapareceram.
Existe um público que ainda prefere segurança, identificação, experiência e confiança. Principalmente idosos, turistas, empresas e passageiros que valorizam um serviço mais profissionalizado.
O mercado diminuiu, mas não morreu.
Ser mulher no volante ainda exige postura e resistência
O preconceito diminuiu, mas a pressão continua existindo
Lili também toca em um ponto importante: o desafio de ser mulher em uma profissão historicamente masculina.
Hoje a presença feminina no volante é mais comum, mas isso não significa igualdade completa. Durante décadas, muitas mulheres precisaram provar duas vezes mais sua capacidade apenas para serem respeitadas.
Os relatos de desrespeito enfrentados por ela mostram algo que ainda existe nas ruas: passageiros que confundem educação com fragilidade.
E talvez seja justamente aí que profissionais como Lili tenham conseguido sobreviver por tanto tempo. Não apenas dirigindo. Mas aprendendo a lidar com pressão, medo, insegurança e situações imprevisíveis diariamente.
O táxi carrega histórias que aplicativos nunca vão substituir
Existe um detalhe interessante na entrevista: o forte vínculo emocional de Lili com o carro “1903”.
Pode parecer apenas um número para quem olha de fora. Mas para muitos taxistas antigos, o carro não é apenas ferramenta de trabalho. É parte da própria identidade.
Durante décadas, taxistas acompanharam histórias de famílias, noites de festa, emergências, despedidas, crises e mudanças da cidade inteira.
Aplicativos trouxeram velocidade e tecnologia. Mas não construíram vínculo humano.
Talvez por isso ainda exista espaço para profissionais que conhecem as ruas não apenas pelo GPS, mas pela memória.
Mais do que taxista, Lili representa uma geração que se recusa a desaparecer
Outro detalhe curioso da entrevista é descobrir que Lili também atua como restauradora de objetos.
E isso simboliza muito mais do que parece.
Porque, no fundo, sua trajetória inteira é sobre restauração: restaurar dignidade, sobreviver às mudanças do mercado e manter viva uma profissão que muitos já decretaram como ultrapassada.
Em uma Porto Alegre cada vez mais acelerada, histórias assim mostram algo importante: ainda existem pessoas que resistem ao desaparecimento silencioso das profissões tradicionais.
E talvez o maior erro da sociedade moderna seja justamente esquecer o valor dessas histórias antes que elas sumam de vez.
No Próximo Fala Tchê conversaremos com Motorista de Aplicativo em Porto Alegre
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