Porto Alegre vive a cultura do "Faz que não da nada "

A lei virou sugestão em Porto Alegre?

DEIVID JORGE BENETTICOLUNISTAÚLTIMAS NOTÍCIASREGIÃO METROPOLITANAPORTO ALEGRE E REGIÃO

Colunista Redação II

6/19/20263 min read

Falta de respeito às leis de trânsito preocupa moradores e autoridades

Quem circula diariamente por Porto Alegre já presenciou cenas que parecem ter se tornado comuns: motoristas entrando na contramão, estacionando em vagas destinadas a pessoas com deficiência, ignorando bloqueios viários e desrespeitando sinalizações de trânsito.

O mais preocupante é que, na maioria dos casos, essas infrações não acontecem por falta de informação. Os condutores sabem que estão cometendo uma irregularidade. Ainda assim, muitos decidem seguir adiante.

A sensação que fica é que, para uma parcela da população, a lei deixou de ser uma obrigação e passou a ser apenas uma recomendação.

O problema não é desconhecimento das regras

Durante uma cobertura realizada no Centro Histórico de Porto Alegre, questionei um motorista que trafegava por uma via onde a circulação de veículos comuns é proibida.

A resposta foi direta:

"Todo mundo está passando."

A frase pode parecer simples, mas revela uma realidade preocupante. Muitas pessoas não analisam se uma atitude está correta ou incorreta. Apenas observam o comportamento dos demais e repetem a prática.

Essa lógica ajuda a explicar por que tantas infrações continuam acontecendo diariamente nas ruas da Capital.

Quando todos erram, o erro parece normal

O desrespeito às leis de trânsito muitas vezes se transforma em comportamento coletivo.

Um motorista vê outro entrando em local proibido e faz o mesmo. Outro observa um veículo estacionado irregularmente e acredita que também pode estacionar.

Com o passar do tempo, a infração deixa de ser vista como exceção e passa a ser encarada como algo normal.

O famoso "você sabe com quem está falando?"

Em outra situação acompanhada durante uma reportagem, uma motorista tentou acessar uma área bloqueada para obras.

Ao ser informada de que a passagem estava proibida, respondeu com uma frase conhecida por agentes de fiscalização em todo o Brasil:

"Você sabe com quem está falando?"

A expressão demonstra algo que vai além do trânsito.

Ela revela a crença de que determinadas pessoas possuem privilégios que as colocam acima das regras impostas aos demais cidadãos.

Segundo agentes de trânsito, esse tipo de comportamento é mais comum do que muitos imaginam.

O motorista respeita a lei ou apenas teme a multa?

Talvez essa seja a principal reflexão.

Recentemente, acompanhei uma situação curiosa no Centro de Porto Alegre. Um comerciante utiliza um apito semelhante ao utilizado por agentes de trânsito.

Quando os motoristas escutam o som, muitos imediatamente abandonam a infração, recuam seus veículos ou deixam áreas proibidas.

A placa continua no mesmo lugar.

A regra não mudou.

O que muda é apenas a percepção de que pode haver fiscalização.

Isso demonstra que muitos não respeitam a norma por consciência ou responsabilidade coletiva. Respeitam porque existe a possibilidade de punição.

Mais fiscalização resolve o problema?

A ampliação do uso de câmeras, radares e equipamentos de monitoramento tem papel importante na redução de infrações e acidentes.

No entanto, a fiscalização sozinha não resolve uma questão cultural.

Nenhuma cidade consegue colocar um agente em cada esquina.

Nenhum município consegue fiscalizar todos os motoristas o tempo inteiro.

Por isso, além da punição para quem desrespeita as regras, também são necessárias campanhas permanentes de educação para o trânsito e conscientização da população.

Porto Alegre precisa recuperar a cultura do respeito às regras

A discussão não deve ser apenas sobre a quantidade de radares, câmeras ou agentes nas ruas.

A questão principal é outra.

Uma sociedade organizada não funciona apenas porque existe fiscalização. Ela funciona porque seus cidadãos entendem que as regras existem para proteger todos.

Enquanto parte da população acreditar que a lei só deve ser respeitada quando existe risco de multa, situações como contramão, estacionamento irregular e desrespeito à sinalização continuarão fazendo parte da rotina.

Porto Alegre enfrenta desafios importantes na mobilidade urbana. Mas talvez o maior deles não esteja na infraestrutura.

Talvez esteja no comportamento de quem acredita que a lei vale apenas para os outros.

Por Deivid Jorge Benetti
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