O fim da escala 6x1 preocupa empresários. O que fazer agora para se adaptar?

Empresários criticam o prazo de 60 dias para adaptação ao fim da escala 6x1. Dono de pizzaria em Brasília alerta para dificuldades na contratação de profissionais qualificados e impactos no setor de gastronomia.

BRASIL

Redação MPV III

6/1/20264 min read

Fim da escala 6x1 preocupa empresários: donos de restaurantes e pizzarias apontam dificuldades para adaptação em apenas 60 dias

A aprovação, na Câmara dos Deputados, da proposta que prevê o fim gradual da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho no Brasil acendeu um alerta entre empresários de diversos setores da economia. Enquanto trabalhadores comemoram a possibilidade de mais tempo de descanso e melhor qualidade de vida, empresários afirmam que o prazo estabelecido para adaptação é curto e pode gerar impactos significativos na operação de empresas, especialmente aquelas que dependem de mão de obra especializada.

Entre os críticos da proposta está o empresário Wesley Moreira, proprietário da cantina e pizzaria Don Romano, que possui três unidades em Brasília, no Distrito Federal. Segundo ele, a transição prevista em apenas 60 dias é inviável para negócios do setor gastronômico.

A proposta aprovada pelos deputados determina que, após a promulgação da nova legislação, todas as empresas deverão conceder dois dias de folga aos funcionários em um prazo de apenas dois meses. Além disso, a carga horária semanal será reduzida de 44 para 42 horas inicialmente. Após um período adicional de um ano, a jornada cairá para 40 horas semanais.

Empresários apontam falta de mão de obra qualificada

Para Wesley Moreira, o principal desafio não está apenas na reorganização das escalas de trabalho, mas na dificuldade de encontrar profissionais qualificados para preencher as vagas necessárias.

Segundo o empresário, atualmente as três unidades da pizzaria empregam 74 trabalhadores com carteira assinada. Para manter o funcionamento durante os sete dias da semana após a implementação da nova escala, seria necessário contratar mais 21 profissionais, o que representa um aumento de aproximadamente 28% no quadro de funcionários.

A preocupação é ainda maior quando se trata de funções especializadas, como chefs de cozinha, pizzaiolos e subchefs.

“Como eu faço para encontrar um novo chef de pizzaria em 60 dias? Existem funções que exigem anos de experiência e treinamento. Não é algo que se resolve rapidamente”, argumenta o empresário.

A fala reflete uma preocupação compartilhada por diversos empreendedores dos setores de alimentação, bares, restaurantes, hotelaria e turismo, segmentos que tradicionalmente operam com jornadas flexíveis e atendimento contínuo ao público.

Impactos para o setor de gastronomia

O setor de gastronomia em Brasília e em outras grandes cidades brasileiras enfrenta desafios relacionados à contratação de profissionais qualificados há vários anos. A retomada econômica pós-pandemia ampliou a demanda por trabalhadores especializados, enquanto muitos profissionais migraram para outras áreas de atuação.

Na avaliação de empresários, a redução da jornada sem um período de adaptação mais longo pode elevar custos operacionais e aumentar a necessidade de contratação em um mercado já marcado pela escassez de mão de obra.

Outro fator apontado é o aumento das despesas trabalhistas. Com mais funcionários para cumprir as mesmas atividades, empresas poderão enfrentar crescimento nos custos com salários, encargos sociais, treinamento e benefícios.

Especialistas do setor avaliam que pequenos e médios negócios tendem a sentir os maiores impactos, principalmente aqueles localizados em regiões urbanas onde os custos operacionais já são elevados.

Debate sobre programas sociais e mercado de trabalho

Durante a discussão sobre a proposta, Wesley Moreira também mencionou a dificuldade para contratar novos trabalhadores, associando parte desse cenário à existência de programas sociais.

Segundo ele, alguns beneficiários evitariam empregos com carteira assinada por receio de perder benefícios governamentais. Essa percepção é compartilhada por parte do setor empresarial, embora especialistas em mercado de trabalho apontem que o fenômeno é mais complexo e envolve fatores como remuneração, condições de trabalho, qualificação profissional e oportunidades de crescimento.

O tema tem sido debatido por economistas, representantes empresariais e sindicatos em diferentes regiões do país, especialmente em grandes centros urbanos como Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre.

Setor hospitalar também é citado como preocupação

Além da gastronomia, Wesley Moreira destacou que outras áreas essenciais podem enfrentar desafios semelhantes. Segundo ele, setores como saúde e assistência hospitalar dependem de profissionais altamente qualificados e cuja reposição nem sempre é rápida.

A preocupação envolve cargos como médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e especialistas que atuam em hospitais públicos e privados.

Caso a demanda por novos profissionais aumente significativamente em um curto período, algumas instituições podem enfrentar dificuldades para preencher escalas de trabalho, principalmente em regiões onde já existe déficit de profissionais.

Proposta ainda depende do Senado

Apesar da aprovação na Câmara dos Deputados, a proposta ainda precisa passar pela análise do Senado Federal antes de se tornar lei.

Os senadores poderão aprovar integralmente o texto, rejeitá-lo ou apresentar modificações. Caso haja alterações, a matéria retorna para nova análise dos deputados.

Somente após a conclusão desse processo legislativo e a promulgação da emenda é que as novas regras passarão a valer oficialmente em todo o território nacional.

Até lá, representantes do setor empresarial, sindicatos e entidades de trabalhadores deverão intensificar as negociações e debates sobre possíveis ajustes na implementação da medida.

Mudança histórica nas relações de trabalho

A discussão sobre o fim da escala 6x1 representa uma das mais importantes transformações nas relações trabalhistas brasileiras nas últimas décadas. Defensores da proposta argumentam que a medida pode proporcionar melhor equilíbrio entre vida profissional e pessoal, além de contribuir para a saúde física e mental dos trabalhadores.

Por outro lado, empresários alertam para os desafios operacionais e financeiros que a mudança pode gerar, especialmente em setores que dependem de atendimento contínuo e mão de obra especializada.

Enquanto o debate segue no Congresso Nacional, empresas de diversos segmentos acompanham atentamente os próximos passos da tramitação, buscando entender como adaptar suas operações a um eventual novo modelo de jornada de trabalho no Brasil.

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